Coluna do Umberto Tavares: música e os feats no Brasil

Há componentes muito complexos anteriores ao feat virar um fenômeno também aqui no Brasil.

“A música e os feats no Brasil”

Cada vez mais vistos no cenário da música nacional e internacional, o feat (de ‘featuring’, em inglês) possui algumas nuances que vão além da junção de vozes, soma de públicos e de estilos musicais. E no fim do ano de 2017, quando fiz uma participação numa matéria pro Fantástico (TV Globo) para falar sobre as minhas apostas sobre quem seria a “bola da vez” pro ano seguinte, eu não titubeei em responder que a grande explosão seriam exatamente o feat. Tão comuns e rentáveis mundo afora, mas que aqui no Brasil ainda engatinhavam frente às milhares de oportunidades de acontecerem em um mercado tão rico quanto o nosso. E por que nós fomos mais lentos neste processo?

Há componentes muito complexos anteriores a essa “colaboração” que pode durar 2, 3 ou 4 minutos:

– Gravadora:

Às vezes conciliar interesses de gravadoras diferentes (de cada artista) bem como agenda de lançamento de um cantor com o outro que fez participação, percentual de royalties (que por muito tempo seguiu um padrão, mas hoje não mais) e até mesmo a possibilidade (que muitas vezes não há) de juntar esses artistas eu um mesmo dia, em uma mesma cidade, pra gravar um videoclipe numa data em que ambos possam, sempre foi uma dificuldade a mais para concretizar ideias de parcerias que são altamente atrativas pro público olhando à primeira vista.

– Mercado físico:

Por muito tempo soube-se que o mercado digital suplantaria o físico, mas enquanto isso não acontecia, um pensamento a respeito da “coerência” com os estilos, com o público, se mantinha mais “conservador” que hoje em um mercado amplamente liderado pelo digital. Temos atualmente playlists fortes e segmentadas por estilo. Fato. No entanto, a grande novidade da cena musical hoje é que a principal playlist, que é o TOP 50, não contempla estilo. Ela contempla as músicas mais tocadas e por consequência as mais abraçadas pelo público. Nessa grande playlist não importa se você é internacional, sertanejo, funk, pagode, pop ou axé. Você é música consumida, invariavelmente um hit abraçado pelo público e que agrada quem está ouvindo essa lista, pelo simples fato de ser música.

– Rádios:

Por muito tempo nós tivemos como medida de sucesso fonográfico a venda de produtos físicos (LP’s, CD’s, DVD’s etc…). O que determinava o “sucesso” era a quantidade de álbuns vendidos e a quantidade de vezes que o artista tocava na rádio e, por consequência, aparecia na TV. Hoje, nós temos outras várias formas de avaliação como ranking das plataformas, visualizações, interações, compartilhamentos e é aí que o digital transforma em mais “progressiva” essa questão das parcerias. Anteriormente, quando o que pautava era rádio e CD vendidos, por exemplo, tínhamos parcerias que eram evitadas porque o “artista A“ não tocava na rádio de tal segmento e, em função disso, uma participação com esse “artista A” tiraria as execuções da música fruto desse feat naquela rádio, que seria importante para o “artista B” (em teoria o “dono da música”) fazer o seu número de execuções mínimo pra que houvesse um “êxito”.

Hoje, se olharmos por outro prisma, é até interessante dois artistas com públicos e nichos distintos colaborarem e vou usar um exemplo de uma música que tive que o prazer de compor e produzir. Em “Você partiu meu coração” (Nego do Borel, Wesley Safadão, Anitta), nós fizemos originalmente esta música pra ser gravada por Nego feat Safadão. Embora os dois sejam artistas populares, atuam em estilos completamente diferentes. Isso foi um problema? A resposta é não. Pelo contrário, as diferenças potencializaram a força da música, visto que, ela entrou em playlists sertanejas (com a chancela do Wesley) e nas pops (com a chancela do Nego e principalmente da Anitta, que veio participar também e explodir o potencial de sucesso). Nós (produtores da faixa), pensamos exatamente nessa possibilidade quando aliamos acordeon e uma batida de reggaeton pra embalar uma canção composta desde a primeira linha de letra, pra agradar quem curte sertanejo, pop, reggaeton, enfim… pra que ela fosse o mais abrangente possível.

Este assunto é denso, muito mais complexo do que parece e merece outros textos pra abordar outras várias nuances que possui. O certo é que a cultura do feat entrou de vez no gosto do brasileiro e é um caminho sem volta. Um com todos, todos com um, cada dia com menos barreiras de estilo, idade ou classe. É a música cumprindo seu papel de integração, de união e de compartilhar. Nós temos a mania de subdividir, criar grupos, determinar regras e classes pra separar.

A música como transcende a lógica racional do ser humano está aí pra unir e dizer que sim, é possível estarmos juntos, convivendo, colaborando, mesmo que nossos gostos genuínos não sejam os mesmos, nossa criação ou raiz familiar também não. O que importa? Nós estamos falando de música e em um mundo de discussão e intolerância com pensamentos divergentes, o papel da música é mostrar e nos lembrar que a nossa essência primária é amar. E a música é uma das formas mais lindas de demonstrar sentimento.